Bento Manoel de Barros
A Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção, localizada em Limeira, São Paulo, tem uma história rica que remonta à criação da Irmandade homônima em 13 de janeiro de 1856. Desde sua concepção, o grupo já planejava construir um espaço próprio para honrar suas duas imagens de devoção, um objetivo que começou a tomar forma com um requerimento feito à Câmara Municipal de Limeira ainda em 1856, solicitando um terreno. A construção da igreja teve início em 1858, após obter as aprovações necessárias tanto da edilidade limeirense quanto do bispado de São Paulo.
O projeto contou com o apoio de figuras ilustres da época, como Bento Manoel de Barros (1791-1873), o Barão de Campinas, e José Ferraz Campos (1782-1869), o Barão de Cascalho, além do engenheiro e arquiteto italiano Aurelio Civatti (1837-1917). Inicialmente, a associação construiu a capela-mor até sua cobertura, utilizando um risco inicial do vereador Francisco José de Araújo Lima. Contudo, devido à falta de recursos, o Barão de Cascalho assumiu a continuação da obra, construindo as paredes do corpo da igreja e também a cobertura, utilizando mão-de-obra escrava e a técnica de taipa de pilão como principal método construtivo.
A partir desse ponto, Bento Manoel de Barros assumiu a responsabilidade pela construção. Ele contratou o florentino Aurelio Civatti, que ficou encarregado de corrigir o traçado do templo e dotá-lo de um rico acabamento, repleto de talhas douradas e pinturas. Barros também arcou com os custos da construção das torres e do frontispício, além de adquirir paramentos, pratarias e imagens diretamente de Portugal, gastando na época cerca de 300 contos de réis. A produção em talha do templo é de extremo refinamento e já apresentava forte influência clássica.
Embora a obra e sua decoração sejam creditadas a Aurelio Civatti, sabe-se que ele trabalhou com uma equipe maior. Pesquisas recentes sugerem similitudes entre os desenhos e a produção de talha presentes na capela da Boa Morte e os trabalhos do ituano Miguel Arcanjo Benicio de Assunção Dutra (1812-1875), conhecido como Miguelzinho Dutra. Isso aponta que Civatti poderia ter atuado mais como gestor intelectual do canteiro de obras, contratando outros profissionais para os trabalhos necessários. Em 1864, as obras do templo já estavam se encaminhando para a conclusão.
Aurélio Civatti
Um relato da época descreve a igreja como espaçosa e bem planejada, com um bom coro, lugares para diversos altares e sacristias, além de possuir 4 sinos, sendo dois deles doados pelo cidadão Antonio Alvez. A instalação dos sinos nas duas torres já prontas ocorreu em 29 de abril de 1867, com grandes celebrações registradas no jornal Correio Paulistano. O evento incluiu o batismo dos quatro sinos na capela-mor, com a presença de padrinhos ilustres e acompanhamento musical pela banda do batalhão da cidade. Apesar de muitas fontes indicarem agosto de 1867 como a data de inauguração da igreja, pesquisas em periódicos da época mostram que a inauguração ocorreu, na verdade, um ano depois, em 1868. Bento Manoel de Barros fez várias publicações nos jornais Correio Paulistano e Diário de S. Paulo sobre os preparativos e adiamentos da inauguração.
As festividades de inauguração foram finalmente realizadas em agosto de 1868, com um calendário religioso que incluía a sagração do templo no dia 12, o traslado das imagens da casa de Bento Manoel de Barros até a igreja no dia 13, missas solenes nos dias 14, 15 e 16 em honra de Nossa Senhora da Boa Morte, Nossa Senhora da Assunção e São Bento, respectivamente. No contexto das festas solenes, a irmandade recebeu a escritura pública da capela, além da doação das esculturas religiosas. Como forma de homenagear o grande benfeitor do templo, o Barão de Campinas, a irmandade solicitou a fatura de um retrato de grandes dimensões para ficar exposto na sacristia, provavelmente datado de 1868.
Inicialmente, a igreja apresentava uma fachada com linhas neoclássicas, marcada por seu frontão triangular. Contudo, na década de 1870, o frontispício começou a apresentar sinais de desgaste e ameaçava ruir. Um relatório do engenheiro I. H. Girard, datado de 20 de setembro de 1879, apontava problemas de má execução da obra, umidade natural do terreno e qualidade dos materiais empregados. Apesar dos estudos e orçamento para uma nova fachada, as obras só foram realizadas em 1893, graças à intervenção de Ernesto Mugnaine. Em 1868, a irmandade solicitou sua elevação à categoria de confraria, o que foi aceito pela nunciatura apostólica em 20 de fevereiro de 1869.
A confraria funcionou regularmente até 1891, ficando extinta entre 1892 e 1897, sendo restituída em 8 de setembro de 1898. Ao longo dos anos, o templo passou por diversas reformas e melhorias. No início do século XX, houve uma nova pintura e decoração internas custeadas pela própria confraria, além de uma grande reforma externa realizada entre 1904 e 1905. A escolha da cor azul celeste para a pintura externa gerou certa polêmica na comunidade limeirense, com alguns setores expressando descontentamento através da imprensa local. Em 1908, durante a provedoria de Epiphanio Prado, uma nova reforma da parte interna foi realizada pelo piracicabano Joaquim Miguel Dutra (1864-1930), que ficou responsável pela pintura do altar-mor e dos dois altares laterais. Em 1913, foi realizada nova pintura externa, desta vez a serviço de Luiz Favaro, que também executou uma série de retratos a óleo para o acervo do templo.
Além de sua função religiosa, a igreja também se dedicava ao ensino. Em 1917, com aprovação do bispo de Campinas, Dom João Baptista Correa Nery, foi estabelecida uma escola primária de ensino laico e religioso, a Escola de Nossa Senhora da Assunção, posteriormente conhecida como Escola Mista Nossa Senhora da Assunção. A escola funcionava no andar superior das dependências do templo e atendia alunos de diversas camadas sociais, muitos dos quais estudavam gratuitamente. A década de 1920 marcou profundas mudanças no templo. Entre 1924 e 1925, houve a substituição de todo o assoalho de madeira da nave, capela-mor, capela de Nossa Senhora Aparecida, sacristia e saguões anexos por ladrilhos hidráulicos e mármore nas escadarias, gradil e estrado do altar-mor. Neste mesmo período, foram realizadas instalações elétricas no altar-mor, nos altares laterais de Nossa Senhora da Assunção e São Bento, no coro, na cruz, nas janelas do frontispício e em outros locais da igreja.
Ângelo Perillo
Em 1927, ocorreu uma nova decoração interna, encomendada ao italiano Angelo Perillo, que compreendeu a nave, a capela-mor, a capela de Nossa Senhora Aparecida, a sacristia, as paredes, os forros, o gradil, as janelas, os altares, os bancos e demais móveis. A finalização da obra ocorreu somente por volta de 1932, com a instalação da pintura da imagem de Nossa Senhora da Assunção no forro da capela-mor, inspirada na pintura representando a Imaculada Conceição, de 1678, de autoria do espanhol Bartolomé Esteban Murillo. A importância da Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção na sociedade limeirense é evidenciada pelo fato de que, por duas vezes, ela se tornou sede da paróquia, servindo como matriz provisória entre os anos de 1870 e 1876 e de 1949 a 1971, períodos em que a matriz, a Igreja de Nossa Senhora das Dores, passou por demolições e foi reconstruída.
Entre os bens móveis da igreja, destaca-se o conjunto de imaginária sacra. Além das peças já citadas, há o conjunto formado pelas imagens do Anjo da Guarda e São Sebastião, também em madeira policromada e datadas da década de 1870. Estas últimas faziam parte do acervo da antiga Igreja de Nossa Senhora das Dores e ficaram na Igreja da Boa Morte após o período em que, pela segunda vez, tornou-se sede da paróquia.
Outros bens notáveis incluem uma imagem de Jesus Cristo crucificado, doação de Carlos Scartezini e datada de 1934, de autoria do escultor italiano e residente em São Paulo, Marino Del Favero, executada em carton pierre; um conjunto de sinos e lustres de cristal, além do relógio regulador-popular, datados do século XIX e inseridos na Igreja da Boa Morte na passagem de 1949 a 1950. Os sinos passaram a compor um conjunto de sete que estão distribuídos nas torres sineiras, alguns dos quais fundidos antes do ano de 1857 por Florindo Gonçalves Coelho no Rio de Janeiro.
Desde a sua fundação, a confraria e a igreja têm desempenhado um papel importante na construção da cidade de Limeira, sobretudo nas áreas assistenciais, de saúde (como gênese da Santa Casa de Misericórdia de Limeira, tendo funcionado como hospital de emergência durante o surto de febre amarela em 1892) e educação, extrapolando o campo religioso. A importância do acervo reunido na igreja é inestimável para a compreensão de diversas temáticas históricas e culturais de âmbito local, justificando sua salvaguarda e registro, e possibilitando a ampliação de conceitos e definições da história limeirense.
Em reconhecimento a essa importância, em 2016, por meio da Lei Municipal nº 375, de 12 de dezembro, a capela foi tombada, garantindo não somente proteção aos bens arquitetônicos, mas também aos móveis e integrados do templo. A história da Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção é um testemunho vivo da evolução social, cultural e religiosa de Limeira. Desde sua concepção até os dias atuais, o templo tem sido um ponto focal da comunidade, refletindo as mudanças e permanências na sociedade local ao longo de mais de 150 anos. Sua arquitetura, seu acervo e sua trajetória institucional oferecem um rico panorama da história do interior paulista, constituindo um patrimônio de inestimável valor para a cidade e para o estado de São Paulo.
Texto adaptado de: BERTO, João Paulo (org). Guia do Patrimônio Cultural de Limeira. Limeira: Faculdades Integradas Einstein de Limeira, 2021. Acesse o trabalho completo aqui.